Ficha Técnica.:

Precisamos Falar Sobre o Kevin, de Lionel Shriver. 
Editora: Intrínseca. 
Páginas: 464.




Nunca havia lido nada de Lionel Shriver, e dessa forma Precisamos Falar Sobre o Kevin acabou sendo minha estreia com ela. Publicado no Brasil em 2007 pela Editora Intrínseca. E mais tarde, relançaram novamente em 2010, por causa da obra cinematográfica. 

A primeira capa do livro é realmente apavorante, mórbida e define sem dúvida alguma todo o ambiente da narrativa. E como relançaram o livro com a capa do filme – uma das inúmeras jogadas de marketing do cinema e das editoras, o livro rapidamente ganhou bastante repercussão. Não serei a primeira e nem a última a reclamar dessa estratégia das editoras de relançar seus livros com a capa de seus respectivos filmes.

Não, não serei. Muitos reclamaram disso, e eu também me irritei bastante. Só fui conhecer este livro no começo desse ano. Muito tempo depois do boom causado pelo mesmo. E por isso, eu tenha perdido a chance de ter o livro com a primeira capa. E aqui abro uma questão, que tenho certeza que não serei a primeira a indagar, por que as editoras não mantêm a primeira capa do livro, quando os mesmos são anunciados como filmes? 

Mas bem, retornando ao livro e seu contexto. Lionel Shriver não escreve para qualquer um. Assim como Alice Sebold – minha amada autora -, ela escreve sem pudor algum. E pouquíssimos suportam a narrativa de ambas.

Depois que li o livro, fui em busca de resenhas no Youtube, e encontrei poucos vídeos falando sobre o mesmo. Acabei encontrando no topo das buscas, um vídeo do Psychobooks – canal literário que passei a acompanhar após ver a resenha do Kevin. Não me recordo no momento se foi a Alba ou a Mari a qual eu assisti a resenha, porém concordei em número, grau e gênero com uma delas.




Como ela disse, nas primeiras setenta páginas, Shriver constrói e monta toda sua narrativa, e muitos reclamam do começo do livro, porque como a autora está apresentando a história e nos colocando a par dos fatos, tudo fica muito monótono e dá a ligeira impressão de que a leitura não flui como desejaríamos. 

Após essas setenta páginas, a história estabiliza e ganha fluidez. E aí é quando Shriver nos captura. É neste momento que a história nos aprisiona, e somente quando terminamos o livro, somos livres.

Eu tive alguns problemas no começo desse livro, mas após certo tempo, consegui me conectar com a história e seus personagens. A narrativa é bastante densa, difícil e sem nenhuma pudica. Shriver causa polêmica ao levantar a questão: “é possível odiarmos nossos filhos?”
E vemos através de Eva Khatchadourian essa grande indagação. Sabe por quê? Porque seu filho, Kevin, um adolescente de 16 anos, é o autor de uma chacina que liquidou sete de seus colegas, uma professora e um servente do ginásio de sua escola. 

O livro é contado na perspectiva quase cruel de Eva, mãe de Kevin. Quando digo cruel, quero dizer-lhes, que ela descreve tudo sem nenhuma hipocrisia. Não esconde nada de nós, leitores. E talvez por isso, muitos - e eu estou nesse percentual, sentiram asco e uma profunda irritação da Eva. Porque ela descreve todos seus sentimentos acerca do filho que nunca conseguira entender.

Eva escreve com seu próprio punho cartas ao seu marido ausente, Franklin. Ela nos relata lembranças do seu relacionamento com seu marido. Recorda-se da terrível decisão de abandonar o trabalho que tanto ama e se empenha, como fundadora e presidente de uma bem-sucedida empresa de guias de turismo alternativos. Tudo isso para dar um filho a Franklin, que passa a manifestar seu desejo de ser pai. Eva não queria perder sua vida, aparentemente perfeita, para ver-se presa a uma pessoinha que berra e secreta fluidos nada cheirosos. Porém, em um momento ela decide dar um filho para Franklin, seu tão amado marido.

E partir daí, vemos sua estranha e mórbida desenvoltura como mãe. Descendente de armênios e cidadã livre do mundo, Eva esmiúça tudo: desde o aparente medo de ter um filho até o parto do bebê indócil que assustava as babás.
Nos mostra a criança maquiavélica que cresce sob seus olhos que dividia pra conquistar. Dá-nos aparentes provas de um adolescente de péssimo caráter, através de seus muitos delitos. Todos eles muito bem “escondidos” pelo seu pai, Franklin, que parece nutrir uma idolatria pelo filho.



Quando passamos a nos acostumar com as descrições escancaradas de Eva, deixamos de odiá-la, e consequentemente passamos a entendê-la, e ver que na realidade, ela não tem culpa alguma de ter tido um filho psicopata.

No começo da narrativa, nós pensamos que Kevin comete todas essas barbáries e tem uma péssima índole por causa do desamor e descaso da mãe, e é aí, que passamos a tornar Eva como vilã. Terrível engano, leitor.
Nós nos esquecemos de que se nasce psicopata e não se torna um. Então, mesmo se o Kevin tivesse uma mãe amorosa, que lhe desse carinho e lhe idolatrasse como o pai fez, ele continuaria sendo o psicopata que é.

Manipulador, psicopata, grande fingidor de emoções e sentimentos. Kevin parece está em constante conflito com Eva.
Porque ele sabe que somente ela lhe conhece. Somente ela conhece sua real natureza. Eva sabe que seu filho não presta, e muitas vezes diz em alto e bom som para seu marido ouvir.
No desdobrar-se da história, Shriver faz um retrato assombroso dos inúmeros massacres que ocorreram na América, e traça um perfil geral dos psicopatas nas famílias privilegiadas norte-americanas.




Durante os conflitos com Kevin, Eva engravida novamente, e dessa vez sente o autêntico amor de uma mãe para com seu filho. Celia é inocente e amável, e acaba por ser atingida entre esses dois. 

No decorrer da narrativa, Eva nos conta sua vida após o terrível incidente que seu filho cometeu. Passa a ser conhecida como a mãe de um monstro, e a viver um verdadeiro inferno.

Constantemente agredida, tanto verbal quanto fisicamente, passamos a sentir dó de Eva, que rapidamente é posta no altar das vítimas. 

Passamos até a “abusar” de Franklin, seu marido, que lhe faz passar por centenas de situações. Sempre colocando a culpa das peripécias de Kevin na própria Eva. É revoltante ler isso, porque sabemos que a verdade é que tudo é culpa do Kevin.




E o desfecho do livro é muito bom. O que o livro tem de impactante, ele tem de intenso. Nós louvamos o final da narrativa, que emociona e entrelaça aos poucos a relação atordoada de uma mãe para com seu filho.
Porque apesar de tudo, vemos que Kevin tem a noção de que só tem somente a mãe, e Eva só tem somente a ele. 

Após ler o livro, no mesmo dia, assisti ao filme. É como dizem: “O filme nunca é fiel ao livro.” Existem algumas exceções é claro, mas a obra cinematográfica deste livro em particular não é fiel ao enredo. Se você não ler o livro primeiro, o filme não te tocará no íntimo. Porque o filme, independente do livro, é incapaz de nos tocar. Muito superficial. Não se aprofunda para que nos conectemos com os personagens e com a história.

Deixo para vocês assistirem o trailer do filme:


Precisamos Falar Sobre o Kevin foi um dos meus favoritos, e um dos que mais me emocionou. Entrou para a célebre lista dos livros que me tocaram no coração.
E com certeza é um daqueles livros que facilmente entraria na lista de "Livros que precisam serem lidos". E obviamente me deixou com imensa curiosidade de conhecer os outros títulos da autora publicados aqui no Brasil pela Intrínseca, Dupla Falta, O Mundo pós-aniversário e Grande Irmão. Porque sinceramente, amei a escrita densa, intensa e instigante de Lionel Shriver. Dou minhas adoráveis cinco estrelas para esse livro lindoooooo! 




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