Ficha Técnica


Título: Minha Metade Silenciosa;

Autor(a): Andrew Smith;

Gênero: Drama;

Páginas: 304;

Ano: 2014;

Editora: Gutenberg;

Sinopse: Stark McClellan tem 14 anos. Por ser muito alto e magro, tem o apelido de Palito, mas sofre bullying mesmo porque é “deformado”, já que nasceu apenas com uma orelha. Seu irmão mais velho, Bosten, o defende em qualquer situação, porém ambos não conseguem se proteger de seus pais abusivos, que os castigam violentamente quase todos os dias. Ao enfrentar as dificuldades da adolescência estando em um lar hostil e sem afeto – com o agravante de se achar uma aberração –, o garoto tem na amizade e no apoio do irmão sua referência de amor, e é com ela que ambos sobrevivem.

Um dia, porém, um episódio faz azedar terrivelmente a relação entre Bosten e o pai. Para fugir de sua ira, o rapaz se vê obrigado a ir embora de casa, e desaparece no mundo. Palito precisa encontrá-lo, ou nunca se sentirá completo novamente. A busca se transforma em um ritual de passagem rumo ao amadurecimento, no qual ele conhece gente má, mas também pessoas boas. Com um texto emocionante, personagens tocantes e situações realistas, não há como não se identificar e se envolver com este poético livro.



Minha Metade Silenciosa foi publicado primeiramente em 2011, e só agora a Editora Gutenberg trouxe este livro para o Brasil. 

A arte e o trabalho lindo que fizeram tanto na capa quanto no exemplar físico em si foram dignos de nota dez.
A Gutenberg caprichou tanto, que uma das peculiaridades do exemplar era que só havia uma orelha no livro – a esquerda, dando-nos a entender que aquilo tinha uma causa para ser daquele jeito. 

Obviamente, a orelha direita não existia, porque o protagonista Stark McClellan, mais conhecido como Palito – apelido que lhe deram por causa de sua altura, possuía anotia. Palito nascera sem a orelha direita e por causa disso, sofreu muito preconceito. 

Stark tinha dificuldade em ouvir as pessoas por causa disso. E o autor utilizou-se dos espaçamentos nas páginas como uma forma de nos mostrar a “distância” e a dificuldade de Stark para poder ouvir as pessoas. Assim, nós podemos ficar lado a lado de Palito e viver o que ele vive. 

Bom, dando atenção a narrativa em si, Stark tem 13 anos e vive com seu irmão Bosten – no qual possui uma amizade e um companheirismo lindo, e seus pais. 

Bosten, seu irmão mais velho lhe defende de tudo e de todos. E frequentemente chega a agredir os colegas de classe de seu irmão, que o insultam repetidas vezes por causa de sua deficiência. 

Palito cresceu com o preconceito, e muitas vezes este mesmo vinha de seus próprios pais. Ah sim, seus pais. Eles são muito importantes na narrativa, pois estão sempre agredindo Bosten e Stark, a fim de lhes impor regras. 

Já não basta ter que suportar o preconceito dentro do ambiente escolar, com péssimos adolescentes que inferiorizam Palito, ele ainda tem que aguentar seus pais o recriminando. 

Chamando-o de aberração, trancando-o no quarto de São Fillan.
E sim, este quarto em especial foi o lugar que seus pais “reservaram” para ser o quarto onde Bosten e Stark ficariam, quando transgredissem as regras impostas. O quarto se assemelha assustadoramente a uma cela de prisão. 

Muitas vezes, os dois irmãos passavam dias dentro deste quarto em condições precárias e desumanas. 

Seus pais são horríveis, principalmente a figura paterna, que abusa de Bosten além de agredi-lo. A mãe também não fica de fora, pois também os agride. 

É chocante ver o modo como esses dois “educam” Stark e Bosten. É chocante, bárbaro e nos provoca uma revolta pungente que nos dá vontade de entrar no livro e tirá-los de cena. 

E é mais revoltante ainda perceber que existem pais desse tipo. Que acreditam que batendo nos seus filhos, submetendo-os em castigos físicos e psicológicos estão educando eles, quando na verdade só estão machucando suas proles. Como os próprios pais fazem isso com seus filhos, gente? Como? Se eram eles que deveriam protegê-los, cuidar deles, não machucá-los, ferindo-os da forma mais torpe possível. 

Por causa dos constantes traumas sofridos, Stark passa a alimentar um ego bastante inferiorizado e vive se colocando pra baixo, acreditando que não merece ser tocado, que é uma aberração e que não merece viver.
Bosten por outro lado, resiste tudo em silêncio e é um verdadeiro herói para seu irmão mais novo. 

Emily, a única amiga de Palito, mostra-lhe que não é nenhuma aberração, que é especial e como qualquer outro garoto. Os dois partem num caminho de auto conhecimento, e é tão lindo ver ambos se descobrirem. 

Mais em um dia desses, a mãe de Paul Buckley – amigo de Bosten, pega-os em flagrante dentro de sua casa e furiosa, conta tudo para o pai de Bosten. Os irmãos já estavam passando pela separação de seus pais, e com mais essa, seu pai acaba lhe dando uma surra tão grande, que quase destrói a casa toda. No outro dia, Bosten foge de casa e some de vista. É a partir daí que Stark resolve ir atrás de seu irmão. 

E é nessa busca que Stark amadurece e cresce diante de nossos olhos. Palito parte com a roupa do corpo e alguns pertences de seu irmão, na esperança de encontrá-lo. Se mete em grandes apuros e confusões, mas finalmente chega ao destino final, a casa da Tia Dahlia. 

Lá ele passa a viver com sua tia, a única parente que lhe dá amor e que lhe faz bem. A única que mostrou ser capaz de cuidar dele. Tanto dele quanto de Bosten. Na Califórnia ele faz amigos, Evan e Kim, além de muitos outros na sua nova escola. 

Porém algo que achei um pouco repetitivo foi o modo como Stark se via, sempre se inferiorizando, sempre se colocando como vítima, sempre se comparando a uma aberração.
Está certo que ele sofreu demais e isso lhe trouxe traumas, feridas abertas que demoram pra cicatrizar, mas esse senso de inferioridade é constante e isso acaba se tornando chato. 

Acredito que isso foi o único erro de Smith. Porém, no mais, gostei da narrativa, da forma como o autor descreve a jornada de amadurecimento de seu protagonista, Stark. 

Os personagens são bastante claros e bem definidos e não tive nenhuma dificuldade para entendê-los. Linguagem por muitas vezes poética, continuamente nos fazendo aprofundar nas entrelinhas da narrativa e nos remetendo a reflexão. 

Eu dei cinco estrelas ao drama, e sem dúvida alguma este livro foi um dos melhores que li em 2014. Não sei porquê demorei tanto para lê-lo, não sabia o que estava perdendo!


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