Ficha Técnica

Título: Na Própria Carne (Objetos Cortantes);

Autor(a): Gillian Flynn; 

Gênero: Suspense, Drama, New Adult;

Editora: Rocco;

Páginas: 300;

Ano: 2008;

Sinopse: Crítica de TV da Entertainment Weekly, Gillian Flynn surpreende em sua estréia na literatura, no título Na própria carne, um romance policial com nuanças psicológicas recebido com entusiasmo pelo público e pela crítica dos EUA que prende o leitor do início ao fim. Na trama, a jornalista Camille Preaker é designada para cobrir o assassinato de duas pré-adolescentes na pequena cidade onde cresceu, e acaba reencontrando, após anos distante, a mãe neurótica e a meia-irmã que mal conhece. As poucas pistas da polícia a empurram para uma investigação paralela sobre a ação do suposto serial killer, que avança sobre os mistérios de Wind Gap, revelando segredos terríveis sobre a cidade, sua família e sobre sua vida. 





Na Própria Carne é o livro de estreia da queridinha Gillian Flynn. Este livro foi primeiramente publicado pela Rocco em 2008 para alguns anos depois ser republicado em 2015 pela Editora Intrínseca com o título Objetos Cortantes. Ainda não consigo dizer quais dos títulos é melhor empregado neste livro, mas posso dizer que com certeza, o que mais chama atenção é o “Na Própria Carne” da Rocco.

Vamos comentar um pouco do exemplar que tenho em mãos. Minha edição é a de 2008, e com exceção das páginas brancas (vamos parar de colocar essas páginas brancas nos nossos livros, não é Rocco?! Obrigada, de nada.) , não tenho nada mais a reclamar. O trabalho da Rocco neste livro é perceptível, desde a capa simples, porém impactante até os detalhes minimalistas. A edição é bem simples e claramente dá pra perceber que é o exemplar de estreia de um autor.

Desde 2012 que venho deixando esse livro na minha lista de próximos a comprar. E o motivo da demora pode ser muito bem compreendido por todos. Preço inacessível. Mas aí quando não aguentei mais esperar por uma promoção arrasadora do Submarino, coloquei este livro e alguns outros na cestinha de compras e enfim o adquiri.

Nem lembro como encontrei este livro. A única coisa que sei é que há muito tempo queria ler os livros da Gillian Flynn, e com o sucesso de Garota Exemplar, corri para comprar o livro enquanto ainda tinha os exemplares com as capas originais e não as do filme.

Eu tinha muitas expectativas pra esse livro, não só pela demora, mas pelo tema que a autora escolheu. Tema clichê, eu sei. Mas um clichê muito bem escrito.

Como disse na resenha de Garota Exemplar, Gillian Flynn brinca com os clichês constantemente. Ela se utiliza de personagens extremamente reais, com histórias de vida quase normais e usa de elementos incríveis pra nos prender na narrativa.

O que posso falar de sua narrativa? Perigosa, impactante, distinta, arisca, intensa e poderia dizer que até fria? Acho que sim, pois nossa protagonista Camille Preaker, repórter do Daily Post de Chicago é indiferente a tudo e a todos. Ela vive sua vidinha meia boca, escrevendo reportagens para seu editor-chefe Frank Curry, que lhe tem em alta estima, assim como sua esposa, Emily. O casal é o que mais se aproxima de família para Camille, pois sua abastada família que mora na minúscula Wind Gap, no Condado de Northampton na Pensilvânia é o que menos se possa chamar e considerar de família para ela.

Por isso que quando Frank manda Camille fazer uma reportagem sobre o assassinato de uma garotinha em sua cidade natal, ela teima. Bate o pé, mas acaba voltando pra Wind Gap.

Wind Gap, a fatídica cidadezinha minúscula onde todos se conhecem. Camille revisita e revive seu passado ali. Suas amigas de colegial todas crescidas, bem casadas, com uma ninhada de filhos a apresentar e suas casas magníficas para se gabar. Wind Gap que teima em continuar do jeito que está. Pacata e tranquila. Cada um com sua vidinha, e cada um falando da vida do outro. Afinal, temos isso em qualquer lugar. Imagine num pedacinho de terra como este? Parece até que o tempo não passou para seus habitantes.

Por isso que quando Camille chega na cidadezinha, todo mundo fica sabendo. Sua mãe lhe recebe em casa com uma aparente antipatia e desânimo em ver a filha mais velha e a que mais lhe deu desgosto voltar pra casa. Camille não se surpreende com o comportamento da mãe, porque teve uma infância e adolescência todinha para se acostumar e sobreviver com a indiferença da mãe. Sarcástica, ela avisa a mãe que ficará por algum tempo ali, a fim de fazer uma reportagem sobre o assassinato da garotinha Ann para o jornal onde trabalha, Daily Post de Chicago.

Rapidamente, todos comentam da chegada de nossa protagonista em Wind Gap. Afinal, num lugar pacato como aquele, uma bobagenzinha dessas vira uma novidade tremenda. E Camille foi a única mulher que se dignou a sair daquele lugar e começar uma vida na dita cidade grande. Mas ninguém parece recebê-la bem. Ela só recebe olhares de repulsa e inveja. Repulsa pelo motivo que a fez voltar. Inveja por ela ter tido a coragem de sair dali.

Como eu disse anteriormente, todos sentem repulsa por Camille invadir a vida da família de Ann Nash, a garotinha que foi vítima de um assassinato, aparentemente sem solução. 

Mas voltando nossa atenção pra família de Camille. Sua mãe desde sua infância foi puramente malvada e indiferente a ela. Nunca foi capaz de lhe dar amor e carinho. E o que Camille mais queria era atenção. Atenção e amor para não entrar num mundo de escuridão e dor. Num mundo de depressão e traumas. Ela se cortava constantemente na adolescência, e tem seu corpo quase que completamente habitado por palavras na sua pele, na sua própria carne. Palavras que vão de Desaparecer até Suja. A auto flagelação era uma forma de aliviar seu fardo, era quase que um hobby gravar e guardar aquelas palavras para si. Eram sua história de vida, a trajetória que caminhou até ali.

"Eu me corto, sabe? Também retalho, fatio, gravo, espeto... Sou um caso bem especial. Tenho uma razão. A minha pele, sabe, ela grita. É repleta de palavras - cozinhar, bolinho, bichano, cachos - como se uma criança da primeira série manuseando uma faca tivesse aprendido a escrever em minha carne."

Sua mãe, que nos causa puro asco e revolta, quase me fez pular dentro do livro e esganá-la. Nunca vi uma criatura tão irritante e ridícula quanto ela. Adora nunca revelou a identidade do pai de Camille, e esta só tinha como referência a mãe. Sua mãe parecia querer lhe forçar a aceitar seu mais novo marido como pai verdadeiro. Indiferente e totalmente descartável. Sua irmãzinha, Amma, que aparentemente substitui a falecida Marian, que morreu tragicamente quando nova. Ela parece se espelhar na mãe e é a típica menininha malvada e fútil, que lidera suas outras amiguinhas de escola.

É por isso que nossa protagonista nunca comentou muito sobre sua mãe neurótica. Vemos naturalmente a falta que Marian faz na vida de Camille. Ela nunca conseguiu superar a perda da irmã mais nova, e não parece aceitar a mais nova substituta de Marian.

"Aos onze, já escrevia compulsivamente o que qualquer um me dissesse em um pequenino bloco azul. Já era uma mini repórter. Cada frase precisava ser registrada no papel ou não era real. Fugia. Eu via as palavras flutuando pelo ar: "Camille passe o leite". E a ansiedade me envolvia conforme elas começavam a esvair-se como a fumaça que sai de um jato. Se começasse a escrever, contudo, as teria comigo. Não precisaria me preocupar com que se extinguissem. Era uma conservacionista linguística. A CDF da turma."

Mas mesmo sendo tão irritante e imatura, nossa pequena Amma mostra como é sábia e o quanto é forte. Ela nos mostra como é viver ao lado da mãe é absolutamente insuportável e triste. E nos cativa só pelo simples fato de viver ao lado dessa criatura deplorável.

Com o assassinato de Ann Nash em investigação, a polícia ainda tem que solucionar o desaparecimento de Natalie Keene, outra garotinha da cidadezinha. 

Ninguém parece entender como esses eventos aconteceram, num lugar tão sereno e pacífico quanto Wind Gap. Algumas semanas depois de Camille chegar na cidade, ela e alguns moradores encontram o corpo de Natalie sem vida.

As duas garotinhas brutalmente assassinadas, foram estranguladas e tiveram seus dentes totalmente extraídos. Um crime puramente hediondo. O que essas garotinhas fizeram para ter uma morte tão traumática? É o que Camille e toda a cidade se pergunta.

Nossa protagonista tenta tirar algumas informações do Xerife local, Vickery. Mas ele não contribui em nada e acredita que tudo aquilo foi obra de algum forasteiro. Camille fica sabendo que com aqueles assassinatos, Richard Willis do Departamento de Investigação do Kansas está ali para tentar solucionar o caso. Mas ela só vê o quanto a polícia parece está perdida naquilo tudo.

Camille tenta extrair alguns depoimentos dos moradores, dos comerciantes locais e dos pais das garotinhas assassinadas. Mas nada muito consistente.
Ela quase desiste da reportagem perfeita, quando ouve de uma das melhores amigas de sua mãe, comentários nada menos que suspeitos. Camille inicialmente ignora aquilo e acaba se envolvendo com o policial Willis. 

Nunca vi alguém tão fechada quanto Camille se envolver. Acho que o que mais me impressionou foi o modo como ela escolheu transar com Willis. A mulher encontrou um jeito de se fundir com um cara, sem que o mesmo descobrisse suas marcas.

Um dos acontecimentos que mais me chamou atenção no livro foi quando Camille fez sexo com o irmão de Natalie Keene. Ele assim como ela, não suporta a perda de sua irmã.

E ele trata tão bem da nossa protagonista. Beija e traceja suas marcas, sente aquelas palavras gravadas naquela carne traumatizada. É encantador, sublime. Acredito que é o momento em que nossa Camille mais recebe amor e aceitação.

"Para os que precisam de um nome, há uma variedade bem grande de termos médicos. Só sei que os cortes faziam com que me sentisse segura. Era a prova. Pensamentos e palavras aprisionados onde eu podia vê-los e encontrá-los. A verdade ardendo em minha pele com uma taquigrafia de gente doente. [...] Não queria necessariamente uma cura, mas o espaço para escrever estava acabando. Já estava me cortando entre os dedos do pé - má, pranto - como uma viciada em heroína à caça da última veia."

E quanto ao desfecho, a história é tão ricamente trabalhada e lógica, que descobrimos com Camille quem é o culpado pelo assassinato das duas garotinhas. Mesmo sem ter aquela surpresa e imprevisibilidade, o choque é algo que não larga da gente até terminarmos a leitura desta narrativa.

Parece tão irreal, fantasioso, que custamos a acreditar naquilo. Mas por outro lado enxergamos que aquilo é um espelho da vida real. 

Na Própria Carne é o espelho fiel e exímio das pessoas, do cotidiano e da vida real. Realidade torpe, asquerosa, impactante. 

Gillian Flynn não me decepcionou e vou com muitas expectativas ler seu outro título, Dark Places, que logo será traduzido no Brasil pela Intrínseca.

Seus temas reais, suas narrativas cotidianas nos mostram protagonistas ricamente trabalhadas com um enredo forte e envolvente. Seus cenários, seus personagens secundários e seus detalhes minimalistas dão força e intensidade a suas obras. Seus livros são leituras difíceis, difíceis de suportar, de acreditar. Gillian Flynn não é pra qualquer um. Como eu queria dar um mega abraço nesta mulher incrível e lhe parabenizar por escrever verdadeiras obras primas!



Claramente dou cinco estrelas a este romance. Agora lerei todos os livros que essa mulher ousar escrever, porque vale muito a pena.


3 Comentários

  1. Oi Adorei o blog, estou seguindo. Segue também pra dar uma força rs http://experimenteuseeabuse.blogspot.com.br/
    Bjs :*

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